AVIÃO: SUBSTITUTO NATURAL DO NAVIO?

Esta é uma interessante pergunta que me fiz há alguns anos. Obviamente fiquei contente em pensar sobre ela e tentar desenvolvê-la já que gosto de desafios deste tipo, e quem tem lido meus artigos sabe disso. Não me lembro de já ter visto este assunto abordado, a não ser por mim mesmo há uns dois anos. O navio poderá algum dia ser colocado em cheque pelo avião, após tantos séculos de liderança?
O que me chamou a atenção neste assunto, se é que deve ter tal qualificação, já que a priori parece coisa de maluco, é justamente o fato de nunca ter ouvido um pensamento em tais moldes, e acreditar que isto será viabilizado mais à frente. Quantos anos ou décadas? Não sei. Prefiro ficar com a futurologia viável e não entrar no campo da futurologia adivinhatória.
Os navios estão crescendo cada vez mais, mormente os porta-containers, estando na marca dos 7 mil TEU’s e, segundo se especula, podem chegar a 15.000 TEU’s. Embora o tamanho e a capacidade estejam crescendo, pode-se notar que as velocidades continuam a crescer pouco, até em face do tamanho cada vez maior dos navios, atingindo hoje a marca de cerca de 25 knots.
Qual a velocidade que poderá ser atingida no futuro? E quantos portos no mundo poderão recebê-los, principalmente quanto ao calado?
Aqui entram meus delírios acadêmicos especulativos sobre realidades palpáveis. Será que o avião, ao contrário do navio, permanecerá sempre pequeno, com pouca capacidade de carga, sendo a capacidade máxima hoje de 120 tons no Antonov e 100 tons no 747? Sem falar no alto preço do frete. Não me parece ser este o caminho que vem sendo trilhado. Neste momento a Alemanha está desenvolvendo um dirigível para 160 toneladas e um consórcio francês, inglês e espanhol um avião de megas proporções, sem especificar o que isto significa. Obviamente este é um termo forte e deverá ser realmente grande.
Que mudanças ocorreriam com o transporte de mercadorias se os aviões, assim como vem ocorrendo com os navios, também desenvolvessem seu tamanho na mesma velocidade e chegassem, por exemplo, a uma capacidade de mil ou duas mil toneladas, ou até mais? Será que um avião desses não concorreria com um navio de 6000 TEU’s?
Estes dois veículos tornam-se equivalentes se levarmos em conta que um navio realiza hoje um round trip, por exemplo para o Extremo Oriente, ao redor de 80/90 dias e para a Europa ao redor de 40/45 dias, enquanto um avião pode realizar estas mesmas viagens à razão de uma e duas por dia, e sempre lembrando que a velocidade pode crescer muito mais.
Um avião com capacidade de mil toneladas poderia fazer em 90 dias cerca de 90 viagens, isto considerando apenas as velocidades atuais, empatando com este navio citado.
Estando igualados neste quesito, com o navio com mais capacidade instalada e o avião com maior capacidade de multiplicação do seu espaço, ficamos apenas por conta do alto frete, hoje proibitivo para a maioria dos produtos comercializados na nossa aldeia global.
O frete, sem dúvida, tende a baixar extraordinariamente em face da grade quantidade, e porque o custo do avião não guarda relação com o seu tamanho, sendo mais barato quanto cada vez maior, em termos relativos. É como comprar um vidro de azeitona de 200 e de 500 gramas.
Que estragos a sua velocidade, principalmente nos atuais tempos de just in time, de estoques cada vez mais baixos, quando não eliminados, ficando a produção por conta dos recebimentos de matérias primas apenas para a produção, ele provocaria nos modais de transporte mais lentos? O mesmo raciocínio deve ser aplicado para os produtos acabados, sendo vendidos conforme forem sendo recebidos.
O que importa hoje é a eliminação dos altos custos de estoque, do dinheiro parado, e é isto que ele faz enquanto está num navio, fazendo um cruzeiro extremamente caro.
Como se vê, o frete é importante, e deverá cair extraordinariamente, mas outros fatores também importam. Portanto, ao contrário do que se costuma fazer hoje, isto é, comparar os fretes dos dois modas, o que é uma covardia, deve-se, corretamente, comparar os custos desde a origem até o destino, lembrando, por exemplo, a economia na embalagem, seguro, THC, custos de embarque, etc.
Está claro para mim que a navegação aérea poderá não estar confinada a ser um transporte de produtos de alto valor agregado e/ou rapidamente perecíveis, como por exemplo computadores, que são produzidos pentium e chegariam no destino "lentium" se viajassem de navio. O avião pode se transformar num sério concorrente da navegação marítima, principalmente em face dos constantes e rápidos avanços tecnológicos, e que não são desconhecidos deste setor, muito pelo contrário, onde a tecnologia é o que mais se sobressai.
Não quero com estes devaneios colocar em cheque efetivo, nem preocupar a navegação marítima, que aliás é uma das minhas paixões, nem tampouco levantar a bola da navegação aérea, até porque não tenho este poder, mas apenas colocar este palpável assunto em discussão já que o julgo digno de nota e pelo menos discutível.


Samir Keedi,
Professor universitário,
autor do livro Transportes e seguros no comércio exterior,
e tradutor do Incoterms 2000.

samir@aduaneiras.com.br

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