A ALCA E O ATRASO QUE SÓ PODE PREJUDICAR

Há um ano ou dois escrevemos um artigo defendendo a Alca, e colocando-nos favoráveis a ela. Passado algum tempo todos continuam a discutir o sexo dos anjos, ficando na abstração absoluta, sem levar em conta o que realmente interessa. O aumento do comércio externo, e condições melhores de competição, dando à nossa produção a chance de competir com o produto estrangeiro.
Continuamos sem saber porque o país está contra a Alca, ao invés de encará-la como uma grande oportunidade, como ocorreu na construção dos acordos da Aladi, Mercosul, com a Comunidade Andina, com o Chile, Bolívia, Cuba e México.
Aliás, não só contra a Alca, mas aparentemente contra o mundo, já que se discute, discute, discute e os acordos não saem. Temos perspectivas de acordo com a África do Sul, com a China, com a Índia, com a Rússia, com a União Européia, que sempre dizem estar quase fechado, mas tudo é discussão de sexo dos anjos.
Pelos acordos que temos, fica a impressão de que participamos deles porque somos hegemônicos e em terra de cego quem tem um olho é rei.
Nos demais poderíamos ficar a reboque das grandes economias, o que se trata de um evidente equívoco. Parece que nosso medo, nesse caso, é ficarmos a reboque da economia do tio Sam.
Se temos tanto medo, isso deve querer dizer alguma coisa, pois nos blocos em que estamos, em geral somos os maiores, o que se pode dizer que praticamos uma forma disfarçada de imperialismo. Se fazemos isso, por que temos medo do suposto imperialismo norte-americano?
Não conseguimos entender porque temos tanto medo de um país que apresenta um déficit nas transações correntes maior do que o nosso PIB. Que apresenta um déficit com a China praticamente do tamanho da nossa corrente de comércio com o exterior. E que apresenta déficit inclusive conosco.
Não podemos nos esquecer de que a nossa entrada em acordos comerciais na América Latina, no âmbito da Aladi onde temos vários acordos tarifários, nunca foi prejudicial a nosso país, muito ao contrário, somente ajudou o comércio exterior a crescer.
É uma oportunidade de colocarmos nossos produtos no exterior livres de impostos ou com reduções consideráveis.
Lembro que o medo deve ser de nosso próprio país, de como “incentivamos” nossas empresas a não produzirem, a não contratarem mão-de-obra, a não crescerem, e tudo isso pela manutenção de absurdos juros estratosféricos e carga tributária inibidora do crescimento e do investimento.
Lembremo-nos de que há uma inversão ente as alturas das carga tributária e investimentos, sendo essa de mais ou menos metade daquela, quando o correto, se queremos crescer, é a sua inversão, ou seja, nível de investimentos de nossa atual carga tributária (38%) e carga tributária do tamanho dos nossos investimentos (atualmente cerca de 19%).
Queremos ressaltar, uma vez mais, qual é o destino desta nação, que tem tudo para ser a maior de todos os tempos na história da humanidade. Devemos lembrar que temos o maior território do mundo para plantarmos, devendo ser o único país a poder aumentar sua produção de alimentos nas próximas décadas. Também cerca de 20% de toda a água do planeta, recursos naturais extraordinários. Povo altamente versátil. É inevitável lembrar de um velho slogan de uma empresa, que dizia mais ou menos “aqui, tudo plantando, dá”. E não temos o que os outros têm de ruim, como terremotos, maremotos, vulcões, furacões, etc., coisas que já estamos cansados de repetir e escrever.
Tudo que é preciso lembrar, não somente com relação a Alca, mas com qualquer acordo que se apresente com qualquer país, é que a competição é a melhor forma de desenvolvimento.
Reportemo-nos à velha proteção de nossa indústria, um de nossos maiores erros econômicos, que foram as famigeradas reservas de mercado da informática, da indústria automobilística das nossas famosas “carroças”, da indústria de brinquedos, têxteis, etc.
Bastou abrirmos a economia no início dos anos 90 para termos desenvolvimento nessas áreas, mostrando que a competição é o melhor remédio para a melhoria dos produtos. Quanto aos automóveis, somente nos primeiros 8 meses desta ano de 2004 foram exportados mais de US$ 5 bilhões, devendo fechar o ano com US$ 7/8 bilhões. Em 2003 a indústria têxtil – há poucos anos devastada - foi responsável por exportação de US$  1,5 bilhão com superávit de US$ 500 milhões. Com previsão, em 2004, de, respectivamente, US$ 2 bilhões e US$ 800 milhões.
Assim, qual a melhor forma de desenvolvimento? Esconder-se atrás de nossa incompetência, ou ficar à frente de nossa competência, a qual temos de sobra (e já foi provado)?
Portanto, avancemos com a Alca, queiram alguns ou não, que o brasileiro, quando chamado, responde adequadamente. O problema é que não é muito chamado, mas tratado como incapaz, aquele que precisa de um Estado protetor, o paizão. Nesse caso, o padrastão.

George Herbert: "A dedicação dá aos nossos sonhos as asas para se erguerem e a força para voar".

setembro/2.004

Samir Keedi,
Professor e autor, entre outros, do livro ABC do comércio exterior-abrindo as primeiras páginas, e tradutor do Incoterms 2000.
samir@aduaneiras.com.br


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